Ébola na Libéria

Liberia, 11 dias sem nenhum caso confirmado de Ebola – Em contagem decrescente para ser declarada livre da maior epidemia de todos os tempos

Por: Jeremias Naiene MD MScIH, UNMEER/OMS-Liberia

Escrito em: 04 de Março de 2015

Um dos critérios que a OMS usou para me colocar na Libéria nos meados de Outubro de 2015 era a caóticasituação que se verificava cá em comparação com os outros dois países mais afetados, nomeadamente a Guine e a Serra Leoa. Libéria era o Pais que reportava mais casos confirmados de entre os 3. As Unidades de Tratamento de Ebola já nem tinham capacidade de albergar todos os casos. Os corpos eram cremados por falta de espaço nos cemitérios.

Quando sai do aeroporto de Monrovia, o que vi parecia um ambiente de Guerra, com muitos checkpoints controlados por militares. As pessoas eram obrigadas a descer das viaturas para serem controladas temperaturas e lavarem as mãos com agua e cloro.

Depois de 2 semanas na capital, fui colocado no Condado de Sinoe como coordenador de campo. O Objetivo era bloquear a propagação de casos de Monrovia para os condados periféricos, especialmente os localizados na fronteira com a Cote d’ ivore. O meu Condadoreportou 22 casosconfirmados.

Dos casos que assisti pessoalmente, a febre, fraqueza generalizada, diarreia e vômitos eram os sintomas predominantes. Curiosamente, não vi nenhum caso que se manifestou com sinais hemorrágicos. Um caso desenvolveu sangramento vaginal, mas era em consequência de um aborto devido a complicações do ebola. Vi um caso confirmado de uma menina de 17 anos que estava aparentemente bem, sem nenhuma queixa. Eu tinha muita esperança que ela iria sobreviver. Mas, nas ocorrências foi reportado que ela desenvolveu morte súbita. A senhora que desenvolveu aborto estava tão grave e tivemos de transfundir várias unidades de sangue total, uma delas doada por mim mesmo por falta de doadores cá em Greenville. Ela sobreviveu. Outro caso curioso foi de um homem de 40 anos que desenvolveu só sintomas leves, com uma febrícula e mais nada. Foi positivo no RT-PCR para Ebola e sobreviveu dando a impressão de que há casos de ebola que passavam despercebidos só com sintomas leves ou mesmo nenhum sintoma.

As principais estratégias de controlo eram:

  • Evitar o contato com pessoas doentes, fluidos corporais e principalmente cadáveres: Os profissionais de saúdesão obrigados a usar Equipamento de Proteção Individual (EPI) em todos os doentes. Para casos de ebola usávamos os EPI avançados. Eu visitava os doentes de ebola das 7 às 8 da manhã, embora com EPI da OMS pudéssemos ficar até 4 horas uma vez que o calor era mesmo horrível naquelas roupas. Os óculos por vezes ficavam embaciados e a irritabilidade provocada pelo suorcriava algum incomodo. A educaçãosanitária, uma vez que as práticas tradicionais de tocar em pessoas doentes e em cadáveres é muito forte cá. O treinamento de equipas funerárias para a realização de funerais seguros e dignificados foi uma das medidas mais importantes. O uso de sprays com cloro para descontaminar lugares suspeitos era também uma medida chave.
  • O isolamento precoce dos casos: Primeiro, foram construídosvários centros de tratamento de ebola. Várioslaboratórios com RT-PCR para ebola foram abertos em todo o País para evitar isolar os casos não ebola. Para as pessoas que haviam sido expostas a casos de ebola, incluindo fluidos corporais e cadáveres, era necessário segui-los por 21 dias consecutivos afim de isola-los rapidamente nos centros de tratamento logo que desenvolvessem os primeiros sintomas. Quem segue esses casos são normalmente os traçadores de contatos que sãovoluntarioscomunitários (conhecidos como APEs em Moçambique) treinados emtraçamento de contatos. O traçamento de contatosnormalmente é em combinação com busca ativa de casos porta a porta.

O caso que mais me impressionou foi de uma senhora de 50 anos, a avo e contato da menina de 17 anos que descrevi acima. Eu supervisionava diariamente os traçadores de contatos em uma comunidade remota chamada Poly Town. A senhora era muito simpática e contou-me que estava triste pelo falecimento da neta e quase que desmaiou a minha frente. Jánão comia há dois dias e estava fraca. Afinal, essa fraqueza, falta de apetite e sensação de desmaio já eram os primeiros sinais de ebola, mas eu ainda não tinha dado conta disso. Decidimos controlar a senhora e prescrevi algumas vitaminas. No dia seguinte a senhora desenvolveu diarreia. O traçador de contato reportou-me que de manhã a senhora tinha febre. Eu nãorespeitava a distância regulamentar de mais de 2 metros (recomendado para evitar entrar em contato com perdigotos) e tentava convencer a senhora a ir ao centro de tratamento para se fazer a análise ainda com alguma esperança que poderia ser negativo. Infelizmente a senhora recusou. Tivemos que envolver a polícia e as autoridades administrativas do condado para intimidarem a senhora e obriga-la a ir ao centro. Caso contrário, ela seria uma grande ameaça para toda comunidade. Por instinto, eu quase que verificava as mucosas e o pulso radial a procura de sinais de desidratação ou outro achado positivo. Uma enfermeira impediu-me quando a minha mão sem luvas quase que tocava no punho da senhora. A senhora amedrontada aceitou ir ao centro e o resultado foi positive com 13 ciclos de PCR (estava altamente viremica). No dia seguinte, apesar de a diarreia ter parado e não ter vômitos, o pulso tornou-se muito rápido, fraco e a senhora foi perdendo gradualmente a consciência e faleceu.

Nenhum dos casos que conseguimos isolar nos primeiros dois dias dos sintomas gerou novos casos. A menina de 17 anos e a senhora anêmica que descrevi acima estavam a amamentar bebes de menos de um ano, mas nenhum deles desenvolveu sintomas, sugerindo que nos primeiros dois dias do quadro clinico o Ebola ainda não é transmissível.

Infelizmente nos centros de tratamento de ebola cána Libéria não se usaestetoscópios por não ser possívelusá-los com os EPI avançados. Temos que memorizar todos os achados clínicos dos doentes para escrever nos processos só depois de sairmos da zona vermelha (onde ficam os doentes de ebola).Não se pode sair com absolutamente nada da zona vermelha para a zona verde. Só com a roupa do corpo. Não há nenhum exame complementar. Administramos muitos fluidos aos doentes mas não temos como controlar os eletrólitos. Provavelmente alguns óbitos são devido a desiquilíbrios eletrolíticos. Tratamos a todos empiricamente para malária e damos antibióticos.

Hoje, dia 4 de Marco, Libéria complete 11 dias sem nenhum caso confirmado de ebola em todo o país. Já estamos em contagem decrescente para completarmos dois períodos de incubação (42 dias) e sermos declarados livres de ebola. Em todo o país só temos um doente de ebola nos centros de tratamento de ebola. Se tudo correr bem, no dia 2 de Abril de 2015 seremos o primeiro país dos 3 mais afetados a sermos declarados livres da maior epidemia de todos os tempos apesar de já termos sido os mais afetados em Setembro/Outubro.

O que os outros países devem fazer para evitar epidemias similares.

  • Criar capacidade de identificar doenças fora de padrões normais na região. Para tal, o treinamento de médicos ou técnicos de medicina em fundamentos básicos de epidemiologia é importante. O recrutamento de pessoal com experiência em identificação e controlo de outros surtos para esta epidemia de ebola foi crucial para o controlo da situação na Libéria.
  • Equipar todo o país (em lugares estratégicos) com laboratórios capazes de identificar doenças mais ameaçadoras como cólera, sarampo, febre tifoide e o próprio ebola. Sai mais barato do que enfrentar um surto de grandes magnitudes como cólera, ebola, etc.