Medicina e Literatura, suas relações endógenas

Objectivo

O objectivo que me move para a elaboração deste trabalho é a identificação de paralelismos ou pontos de intersecção entre a Medicina e a Literatura, assim como a dos possíveis processos dinâmicos da criação literária, no âmbito daquela relação já comprovada pela vastidão de obras escritas e publicadas por profissionais de Saúde, nomeadamente pelos médicos.

Definições

Se recorrermos à etimologia da palavra, Medicina em latim define-se como ars medicina, o que significa a arte da cura.

Numa outra definição mais abrangente, Medicina é a arte ou ciência que tem como objectivo prevenir, curar ou atenuar as doenças e promover a saúde.

De acordo com o Dicionário de Língua Portugesa, Porto Editora, edição de 2011,“a literatura é a arte de compor obras em que a linguagem é usada esteticamente e em que é utilizada uma língua como meio de expressão”.

A componete “Arte” figura com destaque naquelas definições, sendo ela própria (a Arte) “uma actividade humana ligada a manifestações de ordem estética feita a partir de percepções, de emoçõese ideias”, ou “a faculdade de criar beleza ao dar expressão ao mundo material ou imaterial…”, (Wilikipedia.org/wiki?escritor).

Historial e algumas figuras (médicos) de relevo na Literatura

O médico escritor é aquele que escreve de forma criativa fora da esfera da sua prática médica. Ao longo da História Universal o exercício da actividade médica tem decorrido em paralelo com actividades artísticas, neste caso e muito em particularcom aprodução de obras literárias, que vão da poesia à dramaturgia e à narrativa nos seus diferentes géneros.

Um breve olhar pela História traz-nos à lembrança nomes incontornáveis de personalidades de referência na Literatura Universal e que passo a citar:

Na Antiguidade temos a referir Ctesias de Cuido (médico e historiador grego do século V); S. Lucas “o Evangelista” ( autor do “Evangelho de S. Lucas” e do “Acto dos Apóstolos”, e é o padroeiro dos médicos).

Durante a Idade Média destacaram-se, entre outros, Avicena (980-1037), médico e o maior filósofo do Islamismo; Nicolau Copérnico (1473-1543), médico e astrólogo polonês; e François Rabelais (1483-1553), médico francês e autor de peças satíricas.

Na Idade Moderna podemos referir de passagem os nomes de Luís Barahona de Soto (1548-1595), médico e poeta espanhol; Angelus Silesius (1624-1677) médico e poeta polonês.

Contemporâneos são Olinto Oliveira (1865-1956), médico escritor brasileiro; Afrânio Peixoto (1876-1947), médico escritor brasileiro; Fernando Namora (1919-1989), médico e escritor português; Miguel Torga (médico e escritor português; Abel Salazar (médico e escritor português, autor desta frase emblemática “…o médico que apenassabe Medicina, nem de Medicina sabe…”, fim de citação).

Já na actualidade faço referência a Moacir Scliar (psicanalista e escritor), António Lobo Antunes, médico escritor português (Vencedor do Prémio Camões 2007).

Na CPLP temos vários médicos que são membros da UMEAL (União de Médicos Escritores e Artistas Lusófonos).

Por que os médicos escrevem ou a razão para não enlouquecer

As respostas a esta questão tão frequentemente suscitada não são óbvias e uniformes, como não podem ser lineares os caminhos de busca de luz que alumie e desvende os segredos do abismo da psique. Cadacriador, escritor ou artista, reserva para si os motivos ulteriores que o levam a produzir uma obra de arte, ou o modo como expresse esses motivos.

Dum trabalho de escritor brasileiro Waldomiro C. Manfroi( 1 ) extraí passagens que, duma forma sintética, ilustram quão intrincadas e diversas podem ser as razões que levam o médico a escrever.

Assim, ainda citando Manfroi, àquela pergunta alguém respondeu:

“Como os médicos são perdedores, escrevem livros para criar pessoas imortais, porque todas as que tratam morrem…”.

Ou que:

“ O trabalho do quotidiano dos médicos dá-se entre a vida e a morte. É uma luta parecida com a que travam os que procuram a verdade. Procuram, procuram e nunca a encontram…” .

Ou ainda estoutra:

“ O seu contacto íntimo com o drama da vida humana (nascimento, doenças e morte) faz do médico um observador em posição previlegiada dessessentimentos, fazendo com que os grave e crie histórias sob essas inspirações…”.

É o drama humano vivido pelo médico que está no cerne da inspiração, a mesma que o impele para o acto da escrita.

Segundo definição da Organização Mundial da Saúde (1946) Saúde “é um estado de bem-estar físico, psíquico, social, ambiental e espiritual do indivíduo, e não mera ausência de enfermidade”. Alguma forma de disfunção que afecte uma ou algumas destas dimensões conduz inevitavelmente ao estado de doença. É nesta última condição que o indivíduo (=paciente) busca socorro na ciência médica(=médico), no que constitui a primeira fase de interacção entre ambos.

Na prática médica esse encontro entre o médico e o paciente é a etapa fundamental em todo o processo interactivo, nomeadamente durante anamnese em que este último ciceronea o primeiro na excursão pelo universo dos seus padecimentos, das suas apreensões e dos seus dramas. O prático torna-se assim “cúmplice”, passageiro-receptor activo de todo um caudal de emoções do seu paciente. É pois,deste modo, que toda essa torrente de informação, de sentires, de emoções do paciente, numa fase posterior se acoplae plasma no subconsciente do médico e se constitui substrato para novas experiências emocionais.

Parafraseando o poeta brasileiro Mário Quintana (2): “quando adormecemos e sonhamos, acordamos para dentro”. É nesse “acordar para dentro”que as imagens das experiências clínicas adquirem uma nova vitalidade, se reconstroem com outras cores, se movimentamnum plano descartado da censura pelo superego, num exercício de auto-exorcismo dos fantasmas que povoam os sonhos. Fala-se então da libertação da mente, duma concepção de universos e vivências metamorfoseadas, num processo dinâmico de transfiguração dos dramas do real da vida (os espectros da enfermidade, do sofrimento e da tragédia da morte) para um outro plano, o do irreal, do fantasiado, a requerer uma sublimação.

Segundo Freud (4) “…sonhar é uma forma de libertação do Ego, uma catarse a experiências temidas ou protagonizadas…”. E eis então que o médico se apodera da palavra. Aprendemos com Diógenes da Cunha Lima(1) que “… a Literatura e a Medicina lidam com a palavra; no caso da Medicina a palavra é um instrumento terapêutico; no caso da Literatura a palavra é um instrumento de criação artística…”.

Através da palavra e num percurso devolutivo, o facultativo oferece ao paciente, ao leitor, a metáfora do real da vida, o universo magnífico das suas experiências oníricas cuja interpretação é plena de subjectividades.A palavra, o tal instrumento terapêutico a que Lima faz referência, é a arma com que ele próprio (o médico) se liberta e, em simultâneo, liberta o seu paciente, o seu leitor. É umacto de auto-libertação porque catártico, na medida em que ele depura-se das pesadas cargas das experiências clinicas partilhadas.Por outro,porque oferece aos mesmos pacientes e leitores alternativas de como podem ser as visões ou perspectivas doutros universos,irreais e fantasiados é certo,mas representações desconstruidas e recontruidas do real da existência. Através da poesia, da narrativa, ou doutras manifestações de ordem artística, o médico reencontra-se com os seus pacientes, numa renovada comunhão de experiências sobre a vida e sobre o mundo. E é essa visão oferecida que liberta o leitor por conduzi-lo a um outro universo no qual se confronta com novas interpretações das imagens e das emoções que perpassam na obra, ao reencontro com o seu autor.

Em resumo, diria que entre ambos, médico e paciente, estabelece-se uma relação emocional biunívoca activa, mediada pela obra, esse objecto que é, afinal, o símbolo da arte literária em que “se manifestam esteticamente as percepções, as emoções e as ideias”.

Aldino Muianga

Médico Cirurgião-Geral

Docente na Faculdade de Medicina da Universidade de Pretória

Pretória, Maio de 2013

Referências:

  • Lima, Diógenes da Cunha; “O Território Partilhado”
  • Manfroi, Waldomiro C ; citações
  • Quintana, M (1906-1994), KD frases.com
  • Freud S; “ A Interpretação dos Sonhos”, 1932, 3ª edição