Testemunho: A Influência da Arte no Exercício da Medicina

 Gostaria de compartilhar com todos presentes neste acto cultural o testemunho da influência da arte na profissão Médica. Faço a exposição subjectiva da minha própria experiência; como artista e escritor e a influência que isso teve na minha vida profissional.

Gostaria com muito orgulho afirmar que a Arte me levou a Medicina. Não foi a Medicina que me levou a Arte, se bem que a Medicina me levou a apreciar e melhor compreender a Arte. As duas são parte de mim, e sinto que não faria sentido o exercício da Medicina sem antes entende-la no seu conceito de artístico.

A minha vida artística começou quando ainda frequentava o ensino básico. Comecei por escrever prosa, depois passei a escrever poesia e mais tarde passei ao teatro. O início da minha vida artística ficou assinalado quando li o romance “Nós Matamos o Cão Tinhoso” de Luís Bernardo Honwana. Na verdade foi o primeiro romance que li em minha adolescência, quando me cansara de ler almanaques, banda desenhada e outros livros infantís.

Não me esqueço deste episódio, porque foi precisamente logo a posterior a leitura deste romance que escrevi o meu primeiro conto. Inocente e tímido como se podia esperar. Depois de tanto insistir em escrever contos tímidos, passei à aventura de escrever poesia. E cerca de ano depois incrementei a minha aventura ao teatro.

A arte obriga a compreender o homem. Os contos e as poesias que escrevi, não seriam possíveis, se não fizesse o esforço de compreender o homem. Entender as suas angústias, seus medos, seus receios e motivações, suas forças e suas vontades. Não se pode criar contos sem isso.

Em Medicina também é assim. Quando escolhi este curso, tinha a clara percepção que para ser Médico devia conhecer as pessoas, nesse caso os pacientes. Pessoas que procuram os médicos para resolver seus problemas de saúde. Exactamente o mesmo pressuposto que existe na arte. Não existe Arte nem Medicina sem Antropologia (no seu sentido mais holístico de acto de conhecer o homem).

A Arte me levou a Medicina, como missão nobre de ajudar ao homem. Ainda que o pensamento filosófico de Esquerda também tenha contribuído para que escolhesse Medicina como profissão. Mas hoje, o meu entender é que não teria ido a Esquerda se não tivesse antes a necessidade artística de compreender o homem e as sociedades.

Hoje quando estou no consultório médico, percebo com clareza a exigência antropológica que todos pacientes implicitamente nos apresentam. É fundamental para mim fazer o mesmo exercício de compreender holisticamente os doentes. O consultório médico não é apenas um espaço para ouvir queixas fisiológicas ou anatómicas e fazer recomendações terapêuticas. O consultório médico é o espaço em que as pessoas se despem de todos seus preconceitos e expõem suas mágoas, seus anseios, suas vontades e seus medos. É o espaço em que as pessoas delegam suas vidas aos médicos.

A arte me fez perceber que não curamos doenças, mas sim curamos doentes. Entender esse conceito artístico é fundamental no curso de Medicina.

Aliás cada dia que passa me questiono com mais persistência se a Medicina é Ciência ou Arte. Bem que é verdade que a Medicina Moderna, com o advento do avanço científico e tecnológico, conseguiu padronizar os processos diagnósticos e terapêuticos, usando métodos objectivamente mensuráveis.

Entretanto métodos subjectivos na avaliação de um doente continuam sendo de tremenda importância. Tomamos, como exemplo, o acto de recolha da história clínica do doente, concretamente a etapa da anamnese. Este acto de conversa com o doente, com perguntas objectivamente orientadas permite captar subjectivamente aspectos fundamentais para o diagnóstico e terapia do doente.

Muitas vezes dissemos que um bom diálogo com o doente permite na maior parte dos casos, por si só, chegar a um diagnóstico ou pelo menos orientar-se tendencialmente a um diagnóstico. A habilidade de estabelecer diálogo, reconhecer as inquietações do doente e compreender as suas ansiedades não são e nem podiam ser padronizadas. É ai que entra o conceito de Medicina como Arte, considerando a Arte no seu sentido etimológico de criação humana para admiração, contemplação e reflexão profunda.

Não é tarefa simples encontrar os limites de métodos objectivos e subjectivos em Medicina. É esta subjectividade que traz brilho aos médicos. É esta subjectividade que permite chegarmos a diagnósticos “inimagináveis” e a terapêuticas acertadas. É esta subjectividade que permite que a durante a investigação Médica se descubram novas terapêuticas e novas patologias.

Permitam-me concluir dizendo que sim Medicina é Arte, e todo pensamento artístico influenciou na minha profissão médica, desde a escolha até ao exercício diário no consultório médico ou na enfermaria.

VIVA A MEDICINA!

VIVA A ARTE!

Nelson Joel Feliciano Tchamo

Médico Generalista