Publicações – Associação Médica de Moçambique ../../../index.html Associação Médica de Moçambique Thu, 06 Jul 2017 20:47:01 +0000 pt-PT hourly 1 https://wordpress.org/?v=5.4.2 Certificar os médicos ou não certificar ../../../certificar-os-medicos-ou-nao-certificar/index.html ../../../certificar-os-medicos-ou-nao-certificar/index.html Thu, 06 Jul 2017 20:47:01 +0000 http://www.associacaomedica.org.mz/?p=9314

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As Faculdades de Medicina e os Hospitais de Ensino ../../../as-faculdades-de-medicina-e-os-hospitais-de-ensino/index.html ../../../as-faculdades-de-medicina-e-os-hospitais-de-ensino/index.html Tue, 27 Jun 2017 15:50:19 +0000 http://www.associacaomedica.org.mz/?p=9309

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Não perder o fio à meada ../../../nao-perder-o-fio-a-meada/index.html ../../../nao-perder-o-fio-a-meada/index.html Tue, 25 Apr 2017 14:34:30 +0000 http://www.associacaomedica.org.mz/?p=9294

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“Os médicos entre o pecado e a virtude” – O “bullying” na vida dos médicos ../../../os-medicos-entre-o-pecado-e-a-virtude-o-bullying-na-vida-dos-medicos/index.html ../../../os-medicos-entre-o-pecado-e-a-virtude-o-bullying-na-vida-dos-medicos/index.html Mon, 04 Apr 2016 20:41:14 +0000 ../../../index__qb8272ff0.html

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../../../9100/index.html ../../../9100/index.html Mon, 27 Apr 2015 15:54:31 +0000 ../../../index__q875ae0fc.html Comunicado de imprensa MISAU

Despacho da Suspensão Temporária da Pós-Graduação

Exortação do Governo aos Profissionais da Saúde

Governo vinga-se dos médicos estagiários que aderiram à greve

Greve dos Médicos pode ter reflexo nas urnas

Médicos continuam a ser castigados com processos disciplinares e descontos

Triggers da Greve dos Médicos

Uma greve histórica –

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Comunicado de imprensa MISAU

Despacho da Suspensão Temporária da Pós-Graduação

Exortação do Governo aos Profissionais da Saúde

Governo vinga-se dos médicos estagiários que aderiram à greve

Greve dos Médicos pode ter reflexo nas urnas

Médicos continuam a ser castigados com processos disciplinares e descontos

Triggers da Greve dos Médicos

Uma greve histórica – Médicos Moçambicanos 2013

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30 anos como médico em Moçambique ../../../30-anos-como-medico-em-mocambique/index.html Wed, 01 Apr 2015 21:48:04 +0000 http://associacaomedica.org.mz/?p=8872

Anexos

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Partir ../../../partir/index.html Sun, 22 Mar 2015 13:51:55 +0000 ../../../index__q89fec1fa.html Partir

Deixe-me partir
Com costas voltadas de água
Afundadas em sonho alegre
Trampolim.
 

Salto que faz de nuvem avião
Meu chão
Que ao tecto as estrelas brilham
Em espaço que é metafísica.
 

Regresso em sonho lento
Progresso. Passo regressado para frente
Me deixe partir.

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Partir

Deixe-me partir
Com costas voltadas de água
Afundadas em sonho alegre
Trampolim.
 

Salto que faz de nuvem avião
Meu chão
Que ao tecto as estrelas brilham
Em espaço que é metafísica.
 

Regresso em sonho lento
Progresso. Passo regressado para frente
Me deixe partir.
 

Voar, nadar, caminhar
Engolir a ânsia do futuro
Desligar corpo e alma, simples partir.
 

Nelson Tchamo, MD

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Medicina e Literatura, suas relações endógenas ../../../medicina-e-literatura-suas-relacoes-endogenas/index.html Fri, 20 Mar 2015 10:25:57 +0000 ../../../index__qdb84b86b.html Objectivo

O objectivo que me move para a elaboração deste trabalho é a identificação de paralelismos ou pontos de intersecção entre a Medicina e a Literatura, assim como a dos possíveis processos dinâmicos da criação literária, no âmbito daquela relação já comprovada pela vastidão de obras escritas e publicadas por profissionais de Saúde,

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Objectivo

O objectivo que me move para a elaboração deste trabalho é a identificação de paralelismos ou pontos de intersecção entre a Medicina e a Literatura, assim como a dos possíveis processos dinâmicos da criação literária, no âmbito daquela relação já comprovada pela vastidão de obras escritas e publicadas por profissionais de Saúde, nomeadamente pelos médicos.

Definições

Se recorrermos à etimologia da palavra, Medicina em latim define-se como ars medicina, o que significa a arte da cura.

Numa outra definição mais abrangente, Medicina é a arte ou ciência que tem como objectivo prevenir, curar ou atenuar as doenças e promover a saúde.

De acordo com o Dicionário de Língua Portugesa, Porto Editora, edição de 2011,“a literatura é a arte de compor obras em que a linguagem é usada esteticamente e em que é utilizada uma língua como meio de expressão”.

A componete “Arte” figura com destaque naquelas definições, sendo ela própria (a Arte) “uma actividade humana ligada a manifestações de ordem estética feita a partir de percepções, de emoçõese ideias”, ou “a faculdade de criar beleza ao dar expressão ao mundo material ou imaterial…”, (Wilikipedia.org/wiki?escritor).

Historial e algumas figuras (médicos) de relevo na Literatura

O médico escritor é aquele que escreve de forma criativa fora da esfera da sua prática médica. Ao longo da História Universal o exercício da actividade médica tem decorrido em paralelo com actividades artísticas, neste caso e muito em particularcom aprodução de obras literárias, que vão da poesia à dramaturgia e à narrativa nos seus diferentes géneros.

Um breve olhar pela História traz-nos à lembrança nomes incontornáveis de personalidades de referência na Literatura Universal e que passo a citar:

Na Antiguidade temos a referir Ctesias de Cuido (médico e historiador grego do século V); S. Lucas “o Evangelista” ( autor do “Evangelho de S. Lucas” e do “Acto dos Apóstolos”, e é o padroeiro dos médicos).

Durante a Idade Média destacaram-se, entre outros, Avicena (980-1037), médico e o maior filósofo do Islamismo; Nicolau Copérnico (1473-1543), médico e astrólogo polonês; e François Rabelais (1483-1553), médico francês e autor de peças satíricas.

Na Idade Moderna podemos referir de passagem os nomes de Luís Barahona de Soto (1548-1595), médico e poeta espanhol; Angelus Silesius (1624-1677) médico e poeta polonês.

Contemporâneos são Olinto Oliveira (1865-1956), médico escritor brasileiro; Afrânio Peixoto (1876-1947), médico escritor brasileiro; Fernando Namora (1919-1989), médico e escritor português; Miguel Torga (médico e escritor português; Abel Salazar (médico e escritor português, autor desta frase emblemática “…o médico que apenassabe Medicina, nem de Medicina sabe…”, fim de citação).

Já na actualidade faço referência a Moacir Scliar (psicanalista e escritor), António Lobo Antunes, médico escritor português (Vencedor do Prémio Camões 2007).

Na CPLP temos vários médicos que são membros da UMEAL (União de Médicos Escritores e Artistas Lusófonos).

Por que os médicos escrevem ou a razão para não enlouquecer

As respostas a esta questão tão frequentemente suscitada não são óbvias e uniformes, como não podem ser lineares os caminhos de busca de luz que alumie e desvende os segredos do abismo da psique. Cadacriador, escritor ou artista, reserva para si os motivos ulteriores que o levam a produzir uma obra de arte, ou o modo como expresse esses motivos.

Dum trabalho de escritor brasileiro Waldomiro C. Manfroi( 1 ) extraí passagens que, duma forma sintética, ilustram quão intrincadas e diversas podem ser as razões que levam o médico a escrever.

Assim, ainda citando Manfroi, àquela pergunta alguém respondeu:

“Como os médicos são perdedores, escrevem livros para criar pessoas imortais, porque todas as que tratam morrem…”.

Ou que:

“ O trabalho do quotidiano dos médicos dá-se entre a vida e a morte. É uma luta parecida com a que travam os que procuram a verdade. Procuram, procuram e nunca a encontram…” .

Ou ainda estoutra:

“ O seu contacto íntimo com o drama da vida humana (nascimento, doenças e morte) faz do médico um observador em posição previlegiada dessessentimentos, fazendo com que os grave e crie histórias sob essas inspirações…”.

É o drama humano vivido pelo médico que está no cerne da inspiração, a mesma que o impele para o acto da escrita.

Segundo definição da Organização Mundial da Saúde (1946) Saúde “é um estado de bem-estar físico, psíquico, social, ambiental e espiritual do indivíduo, e não mera ausência de enfermidade”. Alguma forma de disfunção que afecte uma ou algumas destas dimensões conduz inevitavelmente ao estado de doença. É nesta última condição que o indivíduo (=paciente) busca socorro na ciência médica(=médico), no que constitui a primeira fase de interacção entre ambos.

Na prática médica esse encontro entre o médico e o paciente é a etapa fundamental em todo o processo interactivo, nomeadamente durante anamnese em que este último ciceronea o primeiro na excursão pelo universo dos seus padecimentos, das suas apreensões e dos seus dramas. O prático torna-se assim “cúmplice”, passageiro-receptor activo de todo um caudal de emoções do seu paciente. É pois,deste modo, que toda essa torrente de informação, de sentires, de emoções do paciente, numa fase posterior se acoplae plasma no subconsciente do médico e se constitui substrato para novas experiências emocionais.

Parafraseando o poeta brasileiro Mário Quintana (2): “quando adormecemos e sonhamos, acordamos para dentro”. É nesse “acordar para dentro”que as imagens das experiências clínicas adquirem uma nova vitalidade, se reconstroem com outras cores, se movimentamnum plano descartado da censura pelo superego, num exercício de auto-exorcismo dos fantasmas que povoam os sonhos. Fala-se então da libertação da mente, duma concepção de universos e vivências metamorfoseadas, num processo dinâmico de transfiguração dos dramas do real da vida (os espectros da enfermidade, do sofrimento e da tragédia da morte) para um outro plano, o do irreal, do fantasiado, a requerer uma sublimação.

Segundo Freud (4) “…sonhar é uma forma de libertação do Ego, uma catarse a experiências temidas ou protagonizadas…”. E eis então que o médico se apodera da palavra. Aprendemos com Diógenes da Cunha Lima(1) que “… a Literatura e a Medicina lidam com a palavra; no caso da Medicina a palavra é um instrumento terapêutico; no caso da Literatura a palavra é um instrumento de criação artística…”.

Através da palavra e num percurso devolutivo, o facultativo oferece ao paciente, ao leitor, a metáfora do real da vida, o universo magnífico das suas experiências oníricas cuja interpretação é plena de subjectividades.A palavra, o tal instrumento terapêutico a que Lima faz referência, é a arma com que ele próprio (o médico) se liberta e, em simultâneo, liberta o seu paciente, o seu leitor. É umacto de auto-libertação porque catártico, na medida em que ele depura-se das pesadas cargas das experiências clinicas partilhadas.Por outro,porque oferece aos mesmos pacientes e leitores alternativas de como podem ser as visões ou perspectivas doutros universos,irreais e fantasiados é certo,mas representações desconstruidas e recontruidas do real da existência. Através da poesia, da narrativa, ou doutras manifestações de ordem artística, o médico reencontra-se com os seus pacientes, numa renovada comunhão de experiências sobre a vida e sobre o mundo. E é essa visão oferecida que liberta o leitor por conduzi-lo a um outro universo no qual se confronta com novas interpretações das imagens e das emoções que perpassam na obra, ao reencontro com o seu autor.

Em resumo, diria que entre ambos, médico e paciente, estabelece-se uma relação emocional biunívoca activa, mediada pela obra, esse objecto que é, afinal, o símbolo da arte literária em que “se manifestam esteticamente as percepções, as emoções e as ideias”.

Aldino Muianga

Médico Cirurgião-Geral

Docente na Faculdade de Medicina da Universidade de Pretória

Pretória, Maio de 2013

Referências:

  • Lima, Diógenes da Cunha; “O Território Partilhado”
  • Manfroi, Waldomiro C ; citações
  • Quintana, M (1906-1994), KD frases.com
  • Freud S; “ A Interpretação dos Sonhos”, 1932, 3ª edição
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Testemunho: A Influência da Arte no Exercício da Medicina ../../../testemunho-a-influencia-da-arte-no-exercicio-da-medicina/index.html Fri, 20 Mar 2015 09:43:58 +0000 ../../../index__qdb4ee3aa.html  Gostaria de compartilhar com todos presentes neste acto cultural o testemunho da influência da arte na profissão Médica. Faço a exposição subjectiva da minha própria experiência; como artista e escritor e a influência que isso teve na minha vida profissional.

Gostaria com muito orgulho afirmar que a Arte me levou a Medicina. Não foi a Medicina que me levou a Arte,

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 Gostaria de compartilhar com todos presentes neste acto cultural o testemunho da influência da arte na profissão Médica. Faço a exposição subjectiva da minha própria experiência; como artista e escritor e a influência que isso teve na minha vida profissional.

Gostaria com muito orgulho afirmar que a Arte me levou a Medicina. Não foi a Medicina que me levou a Arte, se bem que a Medicina me levou a apreciar e melhor compreender a Arte. As duas são parte de mim, e sinto que não faria sentido o exercício da Medicina sem antes entende-la no seu conceito de artístico.

A minha vida artística começou quando ainda frequentava o ensino básico. Comecei por escrever prosa, depois passei a escrever poesia e mais tarde passei ao teatro. O início da minha vida artística ficou assinalado quando li o romance “Nós Matamos o Cão Tinhoso” de Luís Bernardo Honwana. Na verdade foi o primeiro romance que li em minha adolescência, quando me cansara de ler almanaques, banda desenhada e outros livros infantís.

Não me esqueço deste episódio, porque foi precisamente logo a posterior a leitura deste romance que escrevi o meu primeiro conto. Inocente e tímido como se podia esperar. Depois de tanto insistir em escrever contos tímidos, passei à aventura de escrever poesia. E cerca de ano depois incrementei a minha aventura ao teatro.

A arte obriga a compreender o homem. Os contos e as poesias que escrevi, não seriam possíveis, se não fizesse o esforço de compreender o homem. Entender as suas angústias, seus medos, seus receios e motivações, suas forças e suas vontades. Não se pode criar contos sem isso.

Em Medicina também é assim. Quando escolhi este curso, tinha a clara percepção que para ser Médico devia conhecer as pessoas, nesse caso os pacientes. Pessoas que procuram os médicos para resolver seus problemas de saúde. Exactamente o mesmo pressuposto que existe na arte. Não existe Arte nem Medicina sem Antropologia (no seu sentido mais holístico de acto de conhecer o homem).

A Arte me levou a Medicina, como missão nobre de ajudar ao homem. Ainda que o pensamento filosófico de Esquerda também tenha contribuído para que escolhesse Medicina como profissão. Mas hoje, o meu entender é que não teria ido a Esquerda se não tivesse antes a necessidade artística de compreender o homem e as sociedades.

Hoje quando estou no consultório médico, percebo com clareza a exigência antropológica que todos pacientes implicitamente nos apresentam. É fundamental para mim fazer o mesmo exercício de compreender holisticamente os doentes. O consultório médico não é apenas um espaço para ouvir queixas fisiológicas ou anatómicas e fazer recomendações terapêuticas. O consultório médico é o espaço em que as pessoas se despem de todos seus preconceitos e expõem suas mágoas, seus anseios, suas vontades e seus medos. É o espaço em que as pessoas delegam suas vidas aos médicos.

A arte me fez perceber que não curamos doenças, mas sim curamos doentes. Entender esse conceito artístico é fundamental no curso de Medicina.

Aliás cada dia que passa me questiono com mais persistência se a Medicina é Ciência ou Arte. Bem que é verdade que a Medicina Moderna, com o advento do avanço científico e tecnológico, conseguiu padronizar os processos diagnósticos e terapêuticos, usando métodos objectivamente mensuráveis.

Entretanto métodos subjectivos na avaliação de um doente continuam sendo de tremenda importância. Tomamos, como exemplo, o acto de recolha da história clínica do doente, concretamente a etapa da anamnese. Este acto de conversa com o doente, com perguntas objectivamente orientadas permite captar subjectivamente aspectos fundamentais para o diagnóstico e terapia do doente.

Muitas vezes dissemos que um bom diálogo com o doente permite na maior parte dos casos, por si só, chegar a um diagnóstico ou pelo menos orientar-se tendencialmente a um diagnóstico. A habilidade de estabelecer diálogo, reconhecer as inquietações do doente e compreender as suas ansiedades não são e nem podiam ser padronizadas. É ai que entra o conceito de Medicina como Arte, considerando a Arte no seu sentido etimológico de criação humana para admiração, contemplação e reflexão profunda.

Não é tarefa simples encontrar os limites de métodos objectivos e subjectivos em Medicina. É esta subjectividade que traz brilho aos médicos. É esta subjectividade que permite chegarmos a diagnósticos “inimagináveis” e a terapêuticas acertadas. É esta subjectividade que permite que a durante a investigação Médica se descubram novas terapêuticas e novas patologias.

Permitam-me concluir dizendo que sim Medicina é Arte, e todo pensamento artístico influenciou na minha profissão médica, desde a escolha até ao exercício diário no consultório médico ou na enfermaria.

VIVA A MEDICINA!

VIVA A ARTE!

Nelson Joel Feliciano Tchamo

Médico Generalista

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Ébola na Libéria ../../../ebola-na-liberia/index.html Thu, 19 Mar 2015 20:39:30 +0000 http://associacaomedica.org.mz/?p=106 Liberia, 11 dias sem nenhum caso confirmado de Ebola – Em contagem decrescente para ser declarada livre da maior epidemia de todos os tempos

Por: Jeremias Naiene MD MScIH, UNMEER/OMS-Liberia

Escrito em: 04 de Março de 2015

Um dos critérios que a OMS usou para me colocar na Libéria nos meados de Outubro de 2015 era a caóticasituação que se verificava cá em comparação com os outros dois países mais afetados,

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Liberia, 11 dias sem nenhum caso confirmado de Ebola – Em contagem decrescente para ser declarada livre da maior epidemia de todos os tempos

Por: Jeremias Naiene MD MScIH, UNMEER/OMS-Liberia

Escrito em: 04 de Março de 2015

Um dos critérios que a OMS usou para me colocar na Libéria nos meados de Outubro de 2015 era a caóticasituação que se verificava cá em comparação com os outros dois países mais afetados, nomeadamente a Guine e a Serra Leoa. Libéria era o Pais que reportava mais casos confirmados de entre os 3. As Unidades de Tratamento de Ebola já nem tinham capacidade de albergar todos os casos. Os corpos eram cremados por falta de espaço nos cemitérios.

Quando sai do aeroporto de Monrovia, o que vi parecia um ambiente de Guerra, com muitos checkpoints controlados por militares. As pessoas eram obrigadas a descer das viaturas para serem controladas temperaturas e lavarem as mãos com agua e cloro.

Depois de 2 semanas na capital, fui colocado no Condado de Sinoe como coordenador de campo. O Objetivo era bloquear a propagação de casos de Monrovia para os condados periféricos, especialmente os localizados na fronteira com a Cote d’ ivore. O meu Condadoreportou 22 casosconfirmados.

Dos casos que assisti pessoalmente, a febre, fraqueza generalizada, diarreia e vômitos eram os sintomas predominantes. Curiosamente, não vi nenhum caso que se manifestou com sinais hemorrágicos. Um caso desenvolveu sangramento vaginal, mas era em consequência de um aborto devido a complicações do ebola. Vi um caso confirmado de uma menina de 17 anos que estava aparentemente bem, sem nenhuma queixa. Eu tinha muita esperança que ela iria sobreviver. Mas, nas ocorrências foi reportado que ela desenvolveu morte súbita. A senhora que desenvolveu aborto estava tão grave e tivemos de transfundir várias unidades de sangue total, uma delas doada por mim mesmo por falta de doadores cá em Greenville. Ela sobreviveu. Outro caso curioso foi de um homem de 40 anos que desenvolveu só sintomas leves, com uma febrícula e mais nada. Foi positivo no RT-PCR para Ebola e sobreviveu dando a impressão de que há casos de ebola que passavam despercebidos só com sintomas leves ou mesmo nenhum sintoma.

As principais estratégias de controlo eram:

  • Evitar o contato com pessoas doentes, fluidos corporais e principalmente cadáveres: Os profissionais de saúdesão obrigados a usar Equipamento de Proteção Individual (EPI) em todos os doentes. Para casos de ebola usávamos os EPI avançados. Eu visitava os doentes de ebola das 7 às 8 da manhã, embora com EPI da OMS pudéssemos ficar até 4 horas uma vez que o calor era mesmo horrível naquelas roupas. Os óculos por vezes ficavam embaciados e a irritabilidade provocada pelo suorcriava algum incomodo. A educaçãosanitária, uma vez que as práticas tradicionais de tocar em pessoas doentes e em cadáveres é muito forte cá. O treinamento de equipas funerárias para a realização de funerais seguros e dignificados foi uma das medidas mais importantes. O uso de sprays com cloro para descontaminar lugares suspeitos era também uma medida chave.
  • O isolamento precoce dos casos: Primeiro, foram construídosvários centros de tratamento de ebola. Várioslaboratórios com RT-PCR para ebola foram abertos em todo o País para evitar isolar os casos não ebola. Para as pessoas que haviam sido expostas a casos de ebola, incluindo fluidos corporais e cadáveres, era necessário segui-los por 21 dias consecutivos afim de isola-los rapidamente nos centros de tratamento logo que desenvolvessem os primeiros sintomas. Quem segue esses casos são normalmente os traçadores de contatos que sãovoluntarioscomunitários (conhecidos como APEs em Moçambique) treinados emtraçamento de contatos. O traçamento de contatosnormalmente é em combinação com busca ativa de casos porta a porta.

O caso que mais me impressionou foi de uma senhora de 50 anos, a avo e contato da menina de 17 anos que descrevi acima. Eu supervisionava diariamente os traçadores de contatos em uma comunidade remota chamada Poly Town. A senhora era muito simpática e contou-me que estava triste pelo falecimento da neta e quase que desmaiou a minha frente. Jánão comia há dois dias e estava fraca. Afinal, essa fraqueza, falta de apetite e sensação de desmaio já eram os primeiros sinais de ebola, mas eu ainda não tinha dado conta disso. Decidimos controlar a senhora e prescrevi algumas vitaminas. No dia seguinte a senhora desenvolveu diarreia. O traçador de contato reportou-me que de manhã a senhora tinha febre. Eu nãorespeitava a distância regulamentar de mais de 2 metros (recomendado para evitar entrar em contato com perdigotos) e tentava convencer a senhora a ir ao centro de tratamento para se fazer a análise ainda com alguma esperança que poderia ser negativo. Infelizmente a senhora recusou. Tivemos que envolver a polícia e as autoridades administrativas do condado para intimidarem a senhora e obriga-la a ir ao centro. Caso contrário, ela seria uma grande ameaça para toda comunidade. Por instinto, eu quase que verificava as mucosas e o pulso radial a procura de sinais de desidratação ou outro achado positivo. Uma enfermeira impediu-me quando a minha mão sem luvas quase que tocava no punho da senhora. A senhora amedrontada aceitou ir ao centro e o resultado foi positive com 13 ciclos de PCR (estava altamente viremica). No dia seguinte, apesar de a diarreia ter parado e não ter vômitos, o pulso tornou-se muito rápido, fraco e a senhora foi perdendo gradualmente a consciência e faleceu.

Nenhum dos casos que conseguimos isolar nos primeiros dois dias dos sintomas gerou novos casos. A menina de 17 anos e a senhora anêmica que descrevi acima estavam a amamentar bebes de menos de um ano, mas nenhum deles desenvolveu sintomas, sugerindo que nos primeiros dois dias do quadro clinico o Ebola ainda não é transmissível.

Infelizmente nos centros de tratamento de ebola cána Libéria não se usaestetoscópios por não ser possívelusá-los com os EPI avançados. Temos que memorizar todos os achados clínicos dos doentes para escrever nos processos só depois de sairmos da zona vermelha (onde ficam os doentes de ebola).Não se pode sair com absolutamente nada da zona vermelha para a zona verde. Só com a roupa do corpo. Não há nenhum exame complementar. Administramos muitos fluidos aos doentes mas não temos como controlar os eletrólitos. Provavelmente alguns óbitos são devido a desiquilíbrios eletrolíticos. Tratamos a todos empiricamente para malária e damos antibióticos.

Hoje, dia 4 de Marco, Libéria complete 11 dias sem nenhum caso confirmado de ebola em todo o país. Já estamos em contagem decrescente para completarmos dois períodos de incubação (42 dias) e sermos declarados livres de ebola. Em todo o país só temos um doente de ebola nos centros de tratamento de ebola. Se tudo correr bem, no dia 2 de Abril de 2015 seremos o primeiro país dos 3 mais afetados a sermos declarados livres da maior epidemia de todos os tempos apesar de já termos sido os mais afetados em Setembro/Outubro.

O que os outros países devem fazer para evitar epidemias similares.

  • Criar capacidade de identificar doenças fora de padrões normais na região. Para tal, o treinamento de médicos ou técnicos de medicina em fundamentos básicos de epidemiologia é importante. O recrutamento de pessoal com experiência em identificação e controlo de outros surtos para esta epidemia de ebola foi crucial para o controlo da situação na Libéria.
  • Equipar todo o país (em lugares estratégicos) com laboratórios capazes de identificar doenças mais ameaçadoras como cólera, sarampo, febre tifoide e o próprio ebola. Sai mais barato do que enfrentar um surto de grandes magnitudes como cólera, ebola, etc.
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